Clara, 34 anos, chegou ao bar decidida a ficar apenas uma hora. Tinha escolhido uma mesa perto da janela, onde a cidade parecia um filme sem som. Pediu sua bebida favorita e guardou o telefone. Pela primeira vez naquela semana, não havia nada a resolver.
Rafael, 37, chegou alguns minutos depois. Eles haviam passado dias conversando sobre música, viagens que ainda não tinham feito e a dificuldade de encontrar alguém que soubesse ouvir. Ao vivo, o primeiro instante foi menos ensaiado: um sorriso, um abraço breve, duas pessoas procurando o começo de uma frase.
O começo veio no guardanapo. Enquanto ela olhava o cardápio, ele escreveu: “Se esta noite fosse uma música, qual seria?”. Clara leu, ergueu uma sobrancelha e pegou a caneta. “Ainda estamos na introdução.” Ele riu. O nervosismo perdeu o lugar à curiosidade.
Conversaram sobre os pequenos prazeres de uma sexta-feira: caminhar sem destino, comprar flores para si, dançar mal na cozinha. Cada resposta deixava outra pergunta no ar. Clara percebeu que já não estava esperando sua vez de falar; queria saber o que vinha depois.
Quando a chuva começou, a mesa ficou mais próxima da janela e o resto do bar pareceu mais distante. Rafael perguntou se ela queria continuar ali ou procurar um lugar mais tranquilo. “Aqui está bom”, respondeu. “Mas pode sentar um pouco mais perto.”
A hora que ela havia reservado terminou sem aviso. Na saída, dividiram o guarda-chuva até a esquina. Ele perguntou se poderia beijá-la. Clara respondeu com um sim e um sorriso que não tentou esconder. Foi um beijo breve, seguido daquela risada de quem esqueceu o que ia dizer.
Em casa, ela encontrou o guardanapo dentro da bolsa. Abaixo de sua resposta, Rafael havia acrescentado: “Gostei da primeira faixa”. Clara fotografou o bilhete e enviou uma mensagem: “A próxima música eu escolho”.
Uma boa história começa com uma conversa.
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